Empresas têm papel central na transição climática, diz presidente da COP30
29/08/2025
(Foto: Reprodução) André Corrêa do Lago, presidente da COP30, fala durante conferência regional sobre ação climática, na Cidade do México, em 26 de agosto de 2025.
Yuri Cortez/AFP
O presidente da COP30, André Corrêa do Lago, divulgou nesta quinta-feira (28) a sétima carta da presidência brasileira da conferência à comunidade internacional.
Desta vez, o foco foi o setor privado, apontado como força indispensável para acelerar a implementação do Acordo de Paris e transformar compromissos climáticos em ações.
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📝ENTENDA: As cartas publicadas pelas presidências das COPs são instrumentos diplomáticos para mobilizar países, setor privado, sociedade civil e outros atores antes da conferência.
É nelas que os presidentes definem prioridades, sinalizam a agenda e buscam construir consensos entre os 198 países-membros da Convenção do Clima da ONU.
a COP30 e nosso futuro
No documento, o embaixador defende que as empresas sejam protagonistas na transformação econômica que acompanha a crise climática e que estejam presentes, em peso, na conferência marcada para novembro em Belém, mesmo com a crise de hospedagem sem precedentes ofuscando o debate climático e impedindo a participação de diversas delegações.
Segundo o texto, a transição para uma economia de baixo carbono já não tem volta, e cabe ao setor privado deixar de lado compromissos tidos como "genéricos" para adotar planos consistentes de ação.
O documento afirma ainda que “a transição climática é irreversível” e que aqueles que anteciparem as mudanças radicais que estão por vir “prosperarão, construindo resiliência e aproveitando as oportunidades extraordinárias que a transição oferece”.
Ainda de acordo com o texto, a COP30 não pode se limitar ao palco das negociações diplomáticas ou à leitura de declarações: precisa se tornar um espaço de entrega concreta.
" O setor privado tem reagido às discussões sobre mudanças climáticas, mas acreditamos que o momento é de avançar. Já existem muitas regras e acordos em vigor, e por isso entendemos que é hora de passar para a etapa seguinte", disse o embaixador em uma coletiva de imprensa com jornalistas sobre a nova carta.
A presidência brasileira sustenta que a conferência será o momento de transformar compromissos em resultados visíveis, aproximando políticas de investimentos e articulando inovação tecnológica com cooperação internacional.
Por isso, na coletiva Corrêa do Lago destacou que a conferência em Belém precisa ser lembrada como um marco de implementação, e não apenas como mais uma rodada de negociações.
Segundo ele, o Brasil tem buscado propor uma agenda concreta justamente para mostrar ao mundo que é possível avançar de forma prática.
O diplomata também reiterou que o processo não pode ficar restrito aos governos, reforçando o papel de estados e municípios, universidades, organizações da sociedade civil e até de indivíduos na construção de soluções climáticas.
Trabalhadores atuam na construção da Villa COP, próximo ao local da conferência climática da ONU em Belém (PA), que receberá delegações estrangeiras durante a COP30.
Anderson Coelho/AFP
💸Pressão por financiamento e riscos de retrocesso
Na coletiva que acompanhou a divulgação da carta, André Corrêa do Lago também reconheceu que o maior desafio de Belém será lidar com a falta de credibilidade em torno das promessas de financiamento que marca a agenda climática.
“Já existem quase 500 compromissos, mas ninguém lembra nem de 30”, afirmou, ao defender a criação de um sistema de monitoramento que dê mais transparência às promessas do setor privado.
Em 2009, países ricos prometeram mobilizar US$ 100 bilhões por ano até 2020 para apoiar ações climáticas em países em desenvolvimento.
A meta nunca foi cumprida integralmente e em 2023 o valor chegou a US$ 83,3 bilhões. Em resposta, a última cúpula do clima da Onu, a COP29, aprovou um novo alvo: US$ 300 bilhões anuais até 2035.
A medida foi apresentada como um avanço, mas recebeu duras críticas de redes da sociedade civil, como o Climate Action Network (CAN), que considerou a proposta "um insulto climático".
O motivo: o valor segue distante do necessário para lidar com os impactos crescentes da crise ambiental, especialmente em países vulneráveis, que enfrentam enchentes, secas, insegurança alimentar e deslocamentos forçados.
Para tentar construir um novo pacto mais ambicioso, Brasil e Azerbaijão, que lideram conjuntamente o atual ciclo de negociações, lançaram o chamado "roteiro Baku–Belém".
A proposta busca elevar o patamar do financiamento para US$ 1,3 trilhão anuais, combinando fontes públicas, privadas e mecanismos de garantias. A ideia é tornar os recursos mais acessíveis e previsíveis, com ênfase na adaptação e na reparação de perdas e danos.
DICIONÁRIO DA COP: entenda os principais termos que movem a Conferência do Clima da ONU
O plano prevê o uso de garantias soberanas, títulos verdes, regulação mais flexível e criação de plataformas nacionais que canalizem os recursos diretamente para projetos locais. Também sugere novas formas de arrecadação, como taxação de carbono e redirecionamento de subsídios de indústrias poluentes.
Na coletiva sobre a nova carta, a presidente-executiva da conferência, Ana Toni, reforçou que a ideia é “revisar o pacto público-privado” em Belém e dar às empresas condições concretas para implementar projetos, mas ainda não há definição de quem fiscalizará os resultados.
“Algumas empresas, principalmente do setor financeiro nos Estados Unidos, chegaram a sofrer ações legais por compromissos assumidos e, para se defender, recuaram. Hoje falam menos, mas não vejo menos comprometimento em continuar financiando. A transição é inevitável e elas estão, sim, se preparando para estar na frente e usar o tema de mudança do clima como oportunidade”, disse.
✉️ Entenda como funcionam as cartas da COP:
Além das delegações oficiais, as cartas são endereçadas à comunidade internacional em sentido amplo, incluindo empresários, artistas e líderes comunitários. Historicamente, elas também dão destaque à mobilização popular e à inclusão de grupos vulneráveis,
Desde março, a presidência já divulgou cinco cartas com temas específicos. A primeira lançou o conceito de “mutirão global”.
A segunda apresentou a estrutura de governança e os quatro pilares da conferência. A terceira propôs reduzir a burocracia nas COPs.
A quarta listou 30 metas em seis eixos temáticos. Já a quinta colocou a ação climática centrada nas pessoas como eixo principal da conferência em Belém, prevista para novembro, e a sexta pediu para que os países da cúpula elevem suas ambições climáticas.
As cartas também funcionam como mecanismo de transparência, ao comunicar intenções e expectativas da presidência, e como plataforma para incluir vozes historicamente marginalizadas no debate climático.
Ao mesmo tempo, criam responsabilidade: o que é proposto nelas passa a ser cobrado na conferência, reforçando a necessidade de que o discurso simbólico se traduza em compromissos e resultados concretos.
Vista aérea dos painéis solares no Parque da Cidade, em Belém (PA), espaço de mais de 500 mil m² que sediará a COP30 em novembro.
Anderson Coelho/AFP
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